Esta é uma agenda de eventos que nos parecem interessantes e ao nosso público, acontecendo em qualquer lugar do mundo onde estejamos conectados. Acompanhe e também nos enviem sugestões.

(27 de Abril de 2017) Fomos conferir a estréia de “No Intenso Agora”, o novo filme do João Moreira Salles, que foi apresentado no Festival “É Tudo Verdade”, no Rio de Janeiro. Um belíssimo filme, construído como uma colagem a partir de registros de viagens pela China feitas pela mãe do diretor nos anos sessenta, adicionando outros filmes de época, e servindo de mote para, partindo deste olhar de testemunha da história, fazer uma narrativa de olhar intimista. No filme atravessamos fatos históricos deste ano emblemático descolados de uma visão usual, brasileira (sem nos perdermos deste pouso habitual, que nos é oferecido também pelas imagens de pequenos retornos da família do diretor à pátria-mãe) levados por câmaras debruçadas sobre pontos estratégicos do mundo naquele momento, sobretudo ao Maio de 68 em Paris, à invasão soviética após a Primavera de Praga e o depois, à Revolução Cultural da China de Mao. Ou mesmo o Rio de Janeiro em plena ditadura militar. A intensidade do momento em que se deseja algo novo, que se necessita algo novo, e que, a despeito de polarizações, a grande questão é: “para onde se lança o agora a partir de alguma ruptura?”. O filme apresenta a pulsação desta questão social, coletiva, permeada do olhar pessoal, individual, por trás dela, e nos leva ao contraponto do momento de incerteza, quando é passado o pico de intensidade e arroubo e se regressa à vida comum: “Para onde agora?”. E este movimento, esta espera turbulenta do porvir lançado neste cenário plural e universal, ou o vazio que vem depois dele, são conduzidos pelo compartilhamento de sentimentos profundamente íntimos. Os slogans revolucionários, o crescimento do papel de Daniel Cohn-Bendit ou o discurso de de Gaulle do fim daquele Maio, a transformação de alienação de uma exótica cantora tcheca inicialmente revolucionária ou o desespero de um estudante tcheco frente à ocupação soviética que o leva a tirar a própria vida e repercute intimamente na vida de cada um no seu país, tudo isso é um pano de fundo para um filme tocante, de tessitura emocional complexa e envolvente. Eventos mundiais são entrelaçados com maestria nesta orquestração, que recorrentemente retorna ao Brasil, à infância, ao colo, de onde se partiu para este vôo. Inevitável trazer estas questões ao clima politico do Brasil atual, embora nada ali aponte para isso nem pareça ter sido feito com esta intenção. É fruto da universalidade da obra. Nota máxima.